Prova

•novembro 29, 2008 • 3 Comentários

Dia 05-12.

Conteúdo:

Questões 1 e 2 – Aulas 01, 02, 03, 04, 05, 06.   

Questão 3 – Cabeça de Porco (ver Aulas 07 e 08)

Questão 4 – Impacto Carcerário (Aulas 10 e 11) (Clique no “11” para baixar o arquivo da aula).

Questão 5 – Conceito de Sociedade (Aula 09), Criminologia e Psicanálise (Aulas 13 e 14), Criminalidade e Mídia (Aula 12) e Criminologia e Alteridade (Aulas 15 e 16). (Escolher um tema.)

Aula 16

•novembro 29, 2008 • 5 Comentários

CRIMINOLOGIA E FILOSOFIA – CRIMINOLOGIA E ÉTICA DA ALTERIDADE

 

 

 

1.   ALTERIDADE:

 

– Impossibilidade de representação do Outro;

Ex. Arte – sempre se esquiva da totalidade. Hoje, a Bienal tem uma galeria vazia diante da estetização geral da existência. Ver arte moderna “feia” que se contrapunha à “pureza” nazista.

Ex2. Narração – sempre traz uma dimensão que excede a representação, o narrador conta uma história para além daquilo que fica escondido na “objetividade” científica.

– Irredutibilidade do Outro aos meus esquemas intelectuais;

– Presença do Outro enquanto interpelação;

– Ética enquanto instância real.

– Totalidade “estetizada” que ri de si mesma mediante um cinismo atroz. As coisas não são mais “sérias”, tudo se reduz à hiper-realidade. Risada grotesca do poder. Ética enquanto instância real que opõe a isso a realidade de carne-e-osso, a vida real que é perdida nessa incapacidade de sentir e capacidade de sempre opor justificativas intelectuais;

– Toda violência é a negação de uma alteridade.

 

2.   RELAÇÃO HUMANA:

 

– Relação humana é a própria condição humana – é o que dá “sentido” à vida;

– É o que preenche o “vazio” do Narciso;

– Relação humana é a própria experiência que tem sua existência ameaçada pelo espetáculo e pela destruição da experiência – experiência é experiência da diferença. Ex. sentido da palavra “bárbaro”;

– O Outro é transcendente ao meu Eu, não posso o consumir, o reduzir à minha representação, não posso o tornar descartável;

– A experiência de alteridade é sempre traumática, mas é ela que nos constitui, ela é a única coisa que vale a pena. É a “aventura” que temos que embarcar.

 

3.   DECISÃO E NÃO-NEUTRALIDADE:

 

– Recuperação do tempo do “agora” (kairós) – tempo como sucessão de “agoras”, como o “tempo que nos resta” (Benjamin);

– Cada instante é uma decisão (Rosenzweig). É impossível ser neutro. Ex. até a respiração não é neutra;

– É impossível se refugiar na neutralidade. As questões agora são questões de vida ou morte.

 

4.   RACIONALIDADE ÉTICA:

 

– Racionalidade não pode ser simples lógico-analítica. Precisa conter sempre uma dimensão ética;

– Racionalidade técnica X Racionalidade ética;

 

5.   CRIMINOLOGIA E RAZÃO ÉTICA:

 

– Criminologia foi um saber que legitimou atrocidades (higienismo, racismo, etc.);

– Criminologia deve lidar com o Outro sem reduzi-lo a uma representação (“bandido” ou “vítima”);

– Deve sempre vir investida por uma ação ética – especialmente “dar voz ao Outro”;

– Justiça é dar voz ao Outro.

 

6. CRIMINOLOGIA E JUSTIÇA:

 

– Como suspender a ordem de violência que vivemos? Como romper com os círculos viciosos que se alimentam uns dos outros? Como romper com as maldições?

– Derrida: ordem da “transcendência” – possibilidade ética de rompimento com a ordem da simetria e da crueldade. Perdão, hospitalidade, dom;

– A justiça é a suspensão da violência que testemunhamos. É uma demanda infinita, que nunca alcançamos, mas que nos move. Não suportar o insuportável, o indecente.  

Aula 15

•novembro 29, 2008 • Deixe um comentário

CRIMINOLOGIA E FILOSOFIA – ÉTICA DA ALTERIDADE

  1. O DISCURSO DA MODERNIDADE

 – Racionalismo – Iluminismo – Otimismo – Esclarecimento.

– Ideal de progresso. Crença na ciência. Exemplo da ética kantiana.

– Auge da Modernidade: equiparação hegeliana do real ao racional. Idéia de Totalidade. História como progresso de uma consciência cada vez maior de si mesmo (liberdade), realizando-se no Estado.

 

  1. FISSURAS

 – Primeira Guerra Mundial: desestabilização do discurso pacifista da Modernidade. Soldados voltam “pobres de experiência” (Benjamin).

– Desesperança do entre-guerras: filosofia existencialista de Heidegger (1889-1976), obras de Kafka (1883-1924), Camus (1913-1960), Sartre (1905-1980), Benjamin (1892-1940), Adorno (1903-1969), entre outros.

 

  1. OCASO:

 

– Colonialismo: ideal de expansão do “progresso” era apenas pretexto para a dominação colonial da África, recheado de pretensão etnocêntrica (ver: Joseph Conrad, “Coração das Trevas” – “horror”).

– Holocausto (Shoah): eliminação industrial de judeus, ciganos, deficientes e comunistas. Evento-limite da Modernidade (ver: Hannah Arendt, “Eichmann em Jerusalém”). Fato absolutamente racional (por exemplo, Sonderkommando, usados para apagar vestígios – constante advertência de que “de tão horrível, ninguém acreditaria” – Primo Levi).

 

  1. PÓS-GUERRA:

 

– Revisão da relação da Modernidade com a “barbárie”: civilização não é apenas um impulso de “progresso”, mas também carrega consigo uma pretensão de homogeneidade que destrói a diferença;

– Fusão entre técnica (razão cartesiana) e destruição do Outro (engenharia social). Grande leitor da Modernidade é o Marquês de Sade: a violência não é uma explosão de irracionalidade, mas a de um “homem de pedra”, um homem “congelado”, “mineral”, capaz de sempre opor razões para a justificar a destruição da alteridade (a vítima). Figura do burguês “de bons modos” capaz das maiores atrocidades na alcova (libertinagem).  

 

  

  1. QUESTÃO DA PÓS-MODERNIDADE:

 

1978 – LYOTARD – “A Condição Pós-Moderna”. Queda das metanarrativas (marxismo, freudismo, catolicismo, liberalismo, etc.). Não acreditamos mais nos “ismos”.

– Questão central é a diferença.

 

  1. CONTEMPORANEIDADE: 

– Era do Vazio – Insegurança Ontológica – Liquidez;

– Individualismo – Narcisismo – Consumismo – Alta competitividade e burocratização;

– “Cultura do lixo”: sociedade da exclusão em que a diferença não apta ao consumo é neutralizada como lixo social. Repetição do duplo típico da Modernidade: o civilizado e o bárbaro.

 

  1. A QUESTÃO DA ALTERIDADE:

 

Emmanuel Levinas (1906-1995)

 

7.1.         Violência da Representação. Filosofia e totalidade.

– Filosofia sempre buscou ser um “mapa representacional” do mundo. Quer reduzir o mundo ao pensamento, ou ainda o Outro ao Mesmo. A realidade deve se enquadrar em conceitos.

– Busca formar, com isso, uma “Totalidade” de sentido que subsuma toda realidade àquele esquema intelectual.

– Violência está enraizada no próprio pensamento filosófico, que procura reduzir o Outro ao Mesmo, a partir da representação. A representação é violenta. Ex. é mais fácil matar quando reduzo a um estereótipo (inimigo, terrorista, traficante, judeu, cigano, etc.).  

 

7.2.         Alteridade: o Outro enquanto Outro

– Alteridade é aquilo que escapa da totalidade. O Outro enquanto Outro, enquanto alguém fora do que eu penso;

– Alteridade como exterioridade, infinito ou enigma;

– É traumática porque escapa do meu mundo seguro, me problematiza, me choca com a diferença;

– Quando estou diante do Outro, não estou diante de um objeto, estou em um encontro, o Outro vem a mim enquanto alguém que me interpela, que me pede socorro, que me exige;

– Todo encontro é, portanto, um encontro ético, entendida a ética como resposta a essa interpelação que vem do rosto do Outro.   

   

 

       

Aula 14

•novembro 29, 2008 • 1 Comentário

CRIMINOLOGIA E PSICANÁLISE – VIOLÊNCIA E SUBJETIVIDADE

 

 

I. SUJEITO E INCONSCIENTE:

– Sujeito da “consciência” da Modernidade – ideal abstrato ratificado pelo racionalismo iluminista;

– Imagem “iluminada” de nós mesmos – eu “higiênico” que não se contamina pela violência;

– O “Lado obscuro” são os outros (os “bárbaros”);

– Código Civil = “bonus pater famílias” – o “civilizado”

– Código Penal = “homo criminalis” – o “bárbaro”.  

 

II. CIVILIZAÇÃO E CULPA:

– Cultura implica supressão dos desejos e a felicidade que dela provém é paradoxal, pois também produz culpa e infelicidade;

– O preço a ser pago pela não-realização dos desejos é o mal-estar (“Mal-Estar na Civilização”);

– Antecipação de Nietzsche do ressentimento (civilização move-se pela “moralina”) – responsabilizo o outro pela frustração do meu não-gozo;

– Culpa é produzida por: a) medo da autoridade ou b) medo do superego;

 

III. VIOLÊNCIA E PROJEÇÃO:

– Teoria psicanalítica da pena: a) vingança; b) reforço do superego; e c) descarga da violência;

– Correspondência entre a disseminação da barbárie (psicanálise) e crime (criminologia crítica e Durkheim) – ruptura com a visão “angelical” do homem (todos desejam violar o tabu – ver Freud, “Totem e Tabu”);

– Descrição sensacionalista do criminoso facilita a projeção sobre bodes expiatórios;

– Os “Outros” (os “bárbaros” – muçulmanos terroristas, ciganos ladrões, negros traficantes, etc.) e os “Nossos” (os Nardoni, o carniceiro da Bósnia, os nazistas, Suzane Richtofen, etc.).

 

IV. O “LADO OBSCURO DE NÓS MESMOS”

– Exemplos: Dorian Gray, Gregor Samsa, Dr. Jeckyll e Mr. Hyde, personagens de Ruben Fonseca e Dalton Trevisan.

– PULSÃO DE VIDA (Pulsões de autoconservação e Pulsões sexuais, Eros, União, Indiferenciação, Civilização, Amor) x PULSÃO DE MORTE (Thanathos, destruição, agressividade, princípio “nirvânico”, morte, mas também local da diferença);

– Ambivalência (“corda entre a perversidade e a santidade”);

– Psicanálise é o único discurso de ousa falar sobre violência “sem álibi” – exige certa “ordem da crueldade”;

– Lidar com nossos perversos é também lidar com o “lado obscuro de nós mesmos”.

 

V. RELENDO O CÍRCULO VICIOSO DA VIOLÊNCIA:

– Por que é tão difícil rompê-lo? Porque com ele exercemos nossa violência – (função de “descarrego” da pena);

– Recalcamento (não permissão de ingresso na consciência dos nossos desejos inconscientes – forças constantes – repetição – retornam como sonhos, atos falhos, etc.);

– Sublimação (desvio do “alvo” da pulsão – ex. “Jogos Mortais”, “Tropa de Elite”);

– Transcendência – ética da alteridade.

– “Criminologia Dramática” e “Criminologia Trágica”.

Aula 13

•novembro 29, 2008 • Deixe um comentário

CRIMINOLOGIA E PSICANÁLISE – A ERA DO VAZIO E A SUBJETIVIDADE CONTEMPORÂNEA

 

1. O Sujeito é um fenômeno histórico 
– A idéia de sujeito não é algo universal, mas sim uma invenção da Modernidade. Muitas outras formas de olhar a si mesmos já foram possíveis (ex. Idade Média, Índia). O indivíduo existe, mas a forma de olhar a si mesmo como separado do mundo é uma invenção (Heidegger/Foucault).
– Invenção do sujeito por Descartes e Leibniz. Descartes inventa um sujeito separado do mundo que fundamenta esse mundo (Cogito ergo sum). Leibniz cria a idéia de “mônada”, uma unidade fechada em si mesma, espécie de “átomos metafísicos” que “não têm janelas”. Com isso, passamos a pensar a liberdade como uma espécie de restrição contra o agir dessa mônada que seria fechada em si mesma.

 

2. Os “Turistas” da Pós-Modernidade (Zygmunt Bauman)
– Tendência das elites, diante das possibilidades de deslocamento fácil na contemporaneidade, de se isolarem em guetos urbanos, condomínios fechados e shopping centers. São espaços sitiados que desintegram o espaço urbano como comunidade geral. Os que ficam de fora guardam ressentimento por isso.
– O “estranho” é temido como se fosse “viscoso”. É como descreve Max Frisch, citado por Bauman no seu ensaio Foreignization 1: “há deles demais, exatamente – não nos locais de construção e não nas fábricas e não no estábulo e não na cozinha, mas depois do expediente. Sobretudo no domingo, subitamente há deles demais” .
– Vêem o mundo como uma espécie de “parque de diversões”, que é potencializado pelos seus brinquedos de consumo.

 

3. NARCISISMO CONTEMPORÂNEO (LASCH, BIRMAN, FREIRE COSTA)

 

(LASCH)

– Substituição do “PENSO, LOGO EXISTO” pelo “GOZO, LOGO EXISTO”.

– Vanguardas radicais dos anos 60/70 perderam o projeto político (para os neoconservadores), o que levou à desqualificação da vida política e redução de batalha contra a “repressão” da “família burguesa”;

– “Sobrevivência narcísica” – impotência diante da possibilidade de catástrofe nuclear e poder desumanizador e destrutivo da burocracia e publicidade. “Homem certo para a burocracia certa” (cinismo e descomprometimento ético);

– “Burocratização” da vida familiar – núcleo da “família burguesa” é substituído aos poucos por técnicos (psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais) do bem-estar social;

– Resultado: indivíduo americano típico (medo da velhice, fascínio pela celebridade, voracidade de admiração pública, medo da competição, sensação de vazio interior, fome insaciável de experiências emocionais, frieza nas relações afetivas, etc.). Correspondem à psicopatologia narcisista.

– Felicidade desidratada do consumo. Não há mais nenhum “espaço de compaixão” como a família burguesa. Institucionalização do ethos social narcisista.

 

(BIRMAN)

– União das teses de Lasch com a de Debord (“Sociedade do Espetáculo”);

– Sujeito “especular”: não é mais o sujeito da “interioridade” do Iluminismo, mas um sujeito em que o olhar do Outro desempenha papel fundamental. Porém esse papel é restrito na medida em que serve apenas para alimentar o narcisismo do sujeito;

– “Espetacularização” do sujeito: idéia de performance;

– Predação no corpo do Outro: o Outro é usado apenas para o gozo, não consegue estabelecer relações afetivas;

– Brasil: ao vislumbrar as formas narcísicas com que a elite se apropria dos bens públicos, o povo responde com violência. Ambos não conseguem estabelecer relação com a Lei (psíquica/jurídica), que permanece puramente sem vigência (comparar a tradição patrimonialista/escravista/hierárquica do Brasil com a “beleza formal” da sua Constituição);

 

(FREIRE COSTA)

– Homem narcisista não sofre por querer gozar demais. O narcisismo é regenerador, que tenta limitar os efeitos violentos de uma sociedade do consumo. O indivíduo é um violentado antes de narcisista.

– Transformação do corpo e sexo em objetos de consumo: corpo e sexo são provas do “sucesso” do indivíduo. Só os “incapazes” permanecem marginalizados nessa “democracia”. De outro lado, instiga a poluição, competição, fabrica guerra de sexos e idades, etc. Esse “lado sujo” surge como “stress” – algo como se fosse natural. O local visado é sempre muito alto, justamente porque ninguém está à altura de alcançá-lo.

Ex. Photoshop de celebridades.

 

4. ASPECTOS DA CRISE DA SUBJETIVIDADE

 

– Modelo tem feito ebulir uma geração de “viciados”: alcoólatras, drogados, workaholics, consumistas, etc.

– Questão da droga (lícita e ilícita) se enquadra aqui: a) de um lado, a proibição do sofrimento do sujeito (é proibido sentir dor – sujeito que sente dor é “loser”); b) de outro, na interpretação de Freire Costa, trata-se de uma espécie de “suspensão” do espírito que põe o sujeito na posição de “zumbi” diante da aceleração e tensão do meio social;

– A droga preenche o vazio interior do sujeito que não consegue mais se relacionar com a alteridade. Fecha-se em mundo próprio e põe o gozo como imperativo. Mas, aos poucos, descobre que a dor é tão intensa quanto o prazer.

– Incapacidade de “sentir”;

– Conta muito cara a ser paga por essa cultura narcisista: os que vencem já perderam tudo que importa; os que perdem sentem um peso insuportável pela derrota, ficando reativos (o “lixo”).  

  

 

 

Aula 12

•novembro 3, 2008 • Deixe um comentário

AVISO: Ainda estou vendo como colocar por aqui a aula 11, segunda parte do Impacto Carcerário. Mais tarde tentarei novamente.

 MÍDIA E CRIMINALIDADE

  1. MÍDIA E SOCIEDADE DO ESPETÁCULO

– MARSHALL MAC LUHAN – “O MEIO É A MENSAGEM”;

– GUY DEBORD – “A Sociedade do Espetáculo”. Algumas teses:

 

“1

Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era diretamente vivido se afastou numa representação.

4

O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens.

5

O espetáculo não pode ser compreendido como o abuso de um mundo da visão, o produto das técnicas de difusão massiva de imagens. Ele é bem mais uma Weltanschauung tornada efetiva, materialmente traduzida. É uma visão do mundo que se objetivou.

12

O espetáculo apresenta-se como uma enorme positividade indiscutível e inacessível. Ele nada mais diz senão que “o que aparece é bom, o que é bom aparece”. A atitude que ele exige por princípio é esta aceitação passiva que, na verdade, ele já obteve pela sua maneira de aparecer sem réplica, pelo seu monopólio da aparência.

13

O caráter fundamentalmente tautológico do espetáculo decorre do simples fato de os seus meios serem ao mesmo tempo a sua finalidade. Ele é o sol que não tem poente, no império da passividade moderna. Recobre toda a superfície do mundo e banha-se indefinidamente na sua própria glória.”

2. MÍDIA E MASSA (JEAN BAUDRILLARD)

– A massa é algo “neutro”, absorve tudo, como um “buraco negro”;

– “Abismo do sentido” – não há comunicação racional – não interessa o conteúdo, importam apenas os signos – dedução de todos os signos ao espetacular – o sentido é o que menos importa para o comportamento da massa;

– Maioria “silenciosa” – a indiferença neutralizadora é justamente o que lhe dá poder (“brutalidade positiva” ou “magia branca”);

– Massas não são alienadas porque não há mais nada a ser mostrado – o poder ignora que não manipula ninguém, simplesmente atende ao poder da massa – a massa não explode, é o lugar da negatividade e da implosão;

– A informação só produz mais massa – capacidade de absorção infinita da massa – massa só processo o meio (“cool”);

– Não há manipulação (isso é ideologia dos próprios mass media). Massas são tão fortes quanto a mídia – absorve tudo. Massa e mídia são processo único. “Massa(ge) é mensagem”.

– Terrorismo: resposta hiper-real e puramente negativa (como a massa), que provoca o mesmo silencio típico da massa (negação de qualquer representação);

– Hiper-realidade: espaço da simulação (confusão real/modelo). O real se transforma em modelo. “O hiper-real é a abolição do real não por destruição violenta, mas pela afirmação, elevação à potência do modelo” (Baudrillard, 68) (ex. pornografia, entrevista, tevê-verdade);

3. PAPEL DA IMAGEM (MAFFESOLI) – CIMENTO SOCIAL

– Potência como “comunidade subterrânea” que se opõe ao poder do Estado;

– Visão estética da vida social – relações políticas são substituídas por uma “proxemia sentimental” – questão da performance está diretamente ligada ao espetáculo – compartilhamento de emoções coletivas;

– Ajustamento proxêmico pode gerar também racismos e fundamentalismos, além de revolta das periferias;

– Televisão permite uma “vibração em uníssono” em relação a grandes eventos (ex. terremoto, tsunami) – imagem é dionisíaca, orgíaca, vinculada a um sensualismo, e não à persuasão – favorece a cópula, a união;

– Imagem é um “mesocosmo” – está entre o micro e o macro, geral e particular – é “religante” (re-ligio) – partilha da imagem. Reforço os vínculos de empatia e o sentimento de “nós”. “Sentir-com”;

– “Celebridades”: brincadeira de Juremir Machado da Silva entre a “morte do autor” e a “morte da obra”.

4. O MEDO E O LIXO SOCIAL

– Vínculos são forjados a partir de uma cultura do medo. “Nós” contra os “Outros” (fabricação dos folk devils);

– Outro potencialmente ameaçador (do vizinho pedófilo ao muçulmano terrorista);

– Solidão narcísica/espetacular provoca formação de laços histéricos em torno de bodes expiatórios;

– Insegurança ontológica facilita a existência de projeções;

– “Lixo” jamais fala por si mesmo. “Vagabundos” pós-modernos – sempre representados em contraponto à “sociedade”, a “nós” – os decentes e trabalhadores – como alguém de “fora” que ameaça (ex. presidiários);

– O discurso autoritário é “cool”: a ética é uncool, as coisas se impõem mediante slogans publicitários que funcionam com maior força (exemplo: Tolerância Zero) – discurso volkisch (fascismo social);

– Imagem do Outro é sempre dissolvida em representação. Incapacidade de sentir o real uma vez entorpecido pelo espetáculo (ex. interrogatório por videoconferência). O próprio eu se hiper-realiza e se transforma em “performance”;

– Apropriação dos meios profanatórios pelo espetáculo e colocação do seu giro no vazio (contraponto: silêncio absoluto da arte).  

Aula 10

•outubro 16, 2008 • Deixe um comentário

O IMPACTO CARCERÁRIO:
1. Prisonização (Donald Clemmer):
– “Assimilação” a uma subcultura carcerária. Espécie de “código do recluso”.
a) aceitação do rótulo de preso (socialmente desvalorizado);
b) acumulação de informações sobre o funcionamento do cárcere;
c) modificação dos modos de comer, vestir, dormir e trabalhar;
d) reconhecimento dos deveres nos presídios e a sensação de cumprimento da responsabilidade.
– Dificuldade de adaptação à cultura “externa” posterior, pois a adaptação à subcultura carcerária supõe a perda dessa cultura.
– Não é a solidão que perturba; é a vida em massa.
– Redução do impacto da prisonização: a) condenação curta; b) personalidade estável; c) manutenção de relações exteriores; d) não-integração com grupos primários ou semi-primários; d) rechaço das normas dos encarcerados e colaboração com as regras dos presídios; e) distância de lideranças e subcultura; e f) abstinência das práticas do cárcere.
– Atinge todos os envolvidos, inclusive direção, agentes carcerários e terapeutas (Thompson). Também a família do preso (ex. revista íntima).

2. Desculturação (Erwin Goffman)
– Instituições totais:
a) todos os aspectos da vida se desenvolvem no mesmo local e sob a mesma autoridade;
b) todas as atividades se desenvolvem junto com outros;
c) todas as atividades estão devidamente programadas;
d) todas as necessidades e aspectos da vida dos internos estão submetidos a um plano determinado.
– Sistema de mortificação (separação do exterior por meio de processo de desfiguração e contaminação – mutilação do Eu) e privilégios, que estabelecem uma reorganização do marco de referência dependente do sistema da instituição total;
– Impacto do cárcere sobre o Eu:
a) desculturação – incapacita o sujeito a readaptar-se à realidade social “normal”, devido a uma perda de contato;
b) mutilação do “eu” – nudez, despojo dos pertences, realização de indignidades físicas (ex. inspeção retal), atos verbais contínuos de submissão, violação da intimidade, relações sociais forçadas, exposição humilhante diante de familiares, privação de relações sexuais, isolamento físico, etc.;
c) alta tensão psíquica;
d) criação de estado de dependência (do tipo infantil);
e) sentimento de tempo perdido (paralisia no tempo do fato cometido – rememoração infinita – tempo/duração retirado – tempo social acelerado – tempo prisional é lento, improdutivo, dessocializante, despersonalizante, estigmatizante e desumano – ver Rodrigo Moretto e Ana Messuti);
f) produção de atitude egoísta;
g) estigmatização.
– Formas de incorporação na cultura carcerária:
a) regressão situacional (evasão psicológica ante a situação – ex. drogadição);
b) intransigência (enfrentamento da prisão, desafio e negação);
c) colonização (integração no mundo da prisão – prisonização);
d) conversão (o interno aceita a prisão e seus princípios).

3. Disciplina (Michel Foucault)
– Instituição disciplinar e panóptica;
– Sistema de prêmios que disciplina, tornando “corpos dóceis”;
– Saber/Poder ligado aos especialistas da prisão.

4. Declínio do ideal de ressocialização
– Prisão é hoje “zona de quarentena” para neutralização. Produz “dessocialização” – única “ressocialização” possível é a “fossilização”;
– Resíduos do ideal de ressocialização: o “exame criminológico”. Técnica que busca no passado do preso algum elemento sempre encontrável como justificar a ação do passado recente. Interpretação retrospectiva da vida pode fazer eventos parecerem lineares sem que efetivamente o sejam;
– Equívoco da “carência de recursos materiais” – (“A PENITENCIÁRIA NÃO PODE RECUPERAR CRIMINOSOS NEM PODE SER RECUPERADA PARA TAL FIM” – Thompson).
– Função “pós-moderna” da prisão: depósito do lixo social. 

5. Prisão no Brasil
– Espaço de exceção em que o preso fica condição próxima ao de “apátrida” (Salo de Carvalho), na medida em que perde todos os direitos;
– Contraste com a realidade marginal gera situações de extrema violência e indignidade, não tendo as mínimas condições, sequer sanitárias (ex. saneamento do Presídio Central “estourou” há duas semanas);
– Superlotação de presídios;
– Excesso de presos provisórios  (30,7% da população encarcerada);
– Política do “grande encarceramento” produziu a organização do crime (ex. políticas do RJ e de SP). Reivindicação dos direitos previstos na Lei de Execuções Penais .