Aula 02 – Criminologia

1. O discurso científico tradicional (Epistemologia)

a) A Filosofia Cartesiana

– Relação entre sujeito e objeto baseada na razão neutra e isenta de emoções. Cogito, ergo sum.
– Sujeito abstrato, neutro e universal.
– Visão matemática da natureza, como local compartimentado que pode ser entendido a partir de uma visão analítica.
– “Filosofia do sujeito”.

b) Visão de ciência correspondente

– Pretensão de autonomia. Disciplinaridade.
– Método cartesiano de decompor o objeto em inúmeras partes, deixando cada uma para uma disciplina.
– Fragmentariedade, compartimentação, separação, reducionismo.
– Ignorância e cegueira acerca dos pressupostos da área vizinha, igualmente importante para resolver os problemas.
– Aprendemos na escola a separar, compartimentar e isolar os objetos, e não a relacionar ou integrar os problemas. 

2. Desconstrução da Filosofia do Sujeito

Cinco exemplos de Stuart Hall:

Althusser – aparelhos ideológicos do Estado.

Saussure – a linguagem é um sistema social que existe fora do sujeito e o constitui. Heidegger e Gadamer – a linguagem é dona do homem.
Foucault – a disciplina imposta ao longo de toda vida molda o sujeito.
Movimentos transversais – feminismo, ecologismo, raciais, etc. O sujeito se vê com uma identidade contrastante, identificando na suposta neutralidade do sujeito a manutenção de estruturas.
Freud – ferida narcísica. O inconsciente.

– Desestrutura-se a idéia de um sujeito livre, abstrato e universal que atua neutramente.

3. O Objeto

– Problemas atuais são complexos. Eles não podem ser decompostos em pedaços e analisados. Complexo tem o sentido de “tecido junto”. Muitas vezes a solução ou crítica a determinados problemas vem apenas de outra área.
– O método preferencial hoje em dia é o integrado, ou seja, o maior número de saberes ao redor do objeto.

4. Criminologia como ciência integrada

4.1. Multidisciplinaridade e Interdisciplinaridade
– Multidisciplinaridade: Simplesmente soma os saberes, em um conjunto de técnicos cuja função é somar especialidades.
– Interdisciplinaridade: há uma relação de troca entre os diversos saberes, mas cada um fica fechado em si mesmo.
Ex. Direito Previdenciário. Necessidade de integração entre filosofia política (diretrizes, concepções), economia (atuarial), direito (princípios e regras), sociologia (estrutura social) e história (evolução histórica). Pensão de filha solteira.
Ex2. Direito de Família. Guarda de um menor. Integração entre direito (regras aplicáveis), sociologia (estrutura social) e psicologia (especialmente em relação ao adolescente). 

  4.3. Transdisciplinaridade

– Morin caracteriza o saber transdisciplinar como aquele cujo objeto “põe em suspenso” determinados sistemas, porque os ATRAVESSA, deixando-os em transe.
Exemplo: Edgar Morin – ciências da Terra, que estudam a teoria tectônica das placas, formando uma união entre geologia, meteorologia, vulcanologia e sismologia. A noção de disciplina engessa o processo de compreensão dos fenômenos em um recorte que simplifica e, por isso, é reducionista. 
– Ponto incerto entre diversos sistemas, numa espécie de fronteira deslocante, posição intermediária, interface entre locais diferentes, que zirão interagir e dialogar.
– Mais que isso: a própria idéia de “disciplina” fica removida. O objeto atrairá diferentes disciplinas, de acordo com a necessidade que o objeto mesmo invoca. Metáfora do campo elétrico de Agamben: atrai-se aquilo que é necessário:
 
A lógica que guia minha pesquisa não é a lógica da substância e do território separado com fronteiras bem definidas. Ela está mais próxima do que, na ciência física, chamamos de um “campo”, onde todo ponto pode a um certo momento carregar-se de uma tensão elétrica e de uma intensidade determinada. Filosofia, política, filologia, literatura, teologia, direito não representam disciplinas e territórios separados, mas são apenas nomes que damos a esta intensidade.
A configuração do que você chama de meus “múltiplos campos de interesse” depende pois da contingência capaz de determinar uma tensão na situação histórica concreta em que me encontro.

– Mais uma metáfora: identidades nacionais puras. O “francês”. O “alemão”. Uma forma similar à pureza das disciplinas. Cada qual separada de forma estanque. “Teoria Pura do Direito”. Racismo. Cegueira em relação ao Outro (ariano contra judeu). Lógica da contaminação. Miscigenação entre disciplinas. Impureza.
– Pretensão de que a transdisciplinaridade englobe MAIS do que apenas ciências, mas um conjunto vital humano: ética, filosofia, arte.

Ex. cientista que fabrica uma bomba não tem apenas que decidir sobre seus requisitos técnicos. A compartimentalização é também uma fuga da responsabilidade. Fica difusa e ninguém assume. É preciso assumir essa responsabilidade.

4.4. Criminologia como saber transdisciplinar

– Criminologia como encontro de diferentes saberes;
– Superação das fronteiras entre as disciplinas.
– É uma ciência sob esse enfoque, sem preocupação com fixação em um único método e uma única estrutura disciplinar. Ela se situa no intervalo entre várias disciplinas – sociologia criminal, psicanálise, direito penal, antropologia, etc.
 

~ por moysespintoneto em março 14, 2008.

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