Aula 13

CRIMINOLOGIA E PSICANÁLISE – A ERA DO VAZIO E A SUBJETIVIDADE CONTEMPORÂNEA

 

1. O Sujeito é um fenômeno histórico 
– A idéia de sujeito não é algo universal, mas sim uma invenção da Modernidade. Muitas outras formas de olhar a si mesmos já foram possíveis (ex. Idade Média, Índia). O indivíduo existe, mas a forma de olhar a si mesmo como separado do mundo é uma invenção (Heidegger/Foucault).
– Invenção do sujeito por Descartes e Leibniz. Descartes inventa um sujeito separado do mundo que fundamenta esse mundo (Cogito ergo sum). Leibniz cria a idéia de “mônada”, uma unidade fechada em si mesma, espécie de “átomos metafísicos” que “não têm janelas”. Com isso, passamos a pensar a liberdade como uma espécie de restrição contra o agir dessa mônada que seria fechada em si mesma.

 

2. Os “Turistas” da Pós-Modernidade (Zygmunt Bauman)
– Tendência das elites, diante das possibilidades de deslocamento fácil na contemporaneidade, de se isolarem em guetos urbanos, condomínios fechados e shopping centers. São espaços sitiados que desintegram o espaço urbano como comunidade geral. Os que ficam de fora guardam ressentimento por isso.
– O “estranho” é temido como se fosse “viscoso”. É como descreve Max Frisch, citado por Bauman no seu ensaio Foreignization 1: “há deles demais, exatamente – não nos locais de construção e não nas fábricas e não no estábulo e não na cozinha, mas depois do expediente. Sobretudo no domingo, subitamente há deles demais” .
– Vêem o mundo como uma espécie de “parque de diversões”, que é potencializado pelos seus brinquedos de consumo.

 

3. NARCISISMO CONTEMPORÂNEO (LASCH, BIRMAN, FREIRE COSTA)

 

(LASCH)

– Substituição do “PENSO, LOGO EXISTO” pelo “GOZO, LOGO EXISTO”.

– Vanguardas radicais dos anos 60/70 perderam o projeto político (para os neoconservadores), o que levou à desqualificação da vida política e redução de batalha contra a “repressão” da “família burguesa”;

– “Sobrevivência narcísica” – impotência diante da possibilidade de catástrofe nuclear e poder desumanizador e destrutivo da burocracia e publicidade. “Homem certo para a burocracia certa” (cinismo e descomprometimento ético);

– “Burocratização” da vida familiar – núcleo da “família burguesa” é substituído aos poucos por técnicos (psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais) do bem-estar social;

– Resultado: indivíduo americano típico (medo da velhice, fascínio pela celebridade, voracidade de admiração pública, medo da competição, sensação de vazio interior, fome insaciável de experiências emocionais, frieza nas relações afetivas, etc.). Correspondem à psicopatologia narcisista.

– Felicidade desidratada do consumo. Não há mais nenhum “espaço de compaixão” como a família burguesa. Institucionalização do ethos social narcisista.

 

(BIRMAN)

– União das teses de Lasch com a de Debord (“Sociedade do Espetáculo”);

– Sujeito “especular”: não é mais o sujeito da “interioridade” do Iluminismo, mas um sujeito em que o olhar do Outro desempenha papel fundamental. Porém esse papel é restrito na medida em que serve apenas para alimentar o narcisismo do sujeito;

– “Espetacularização” do sujeito: idéia de performance;

– Predação no corpo do Outro: o Outro é usado apenas para o gozo, não consegue estabelecer relações afetivas;

– Brasil: ao vislumbrar as formas narcísicas com que a elite se apropria dos bens públicos, o povo responde com violência. Ambos não conseguem estabelecer relação com a Lei (psíquica/jurídica), que permanece puramente sem vigência (comparar a tradição patrimonialista/escravista/hierárquica do Brasil com a “beleza formal” da sua Constituição);

 

(FREIRE COSTA)

– Homem narcisista não sofre por querer gozar demais. O narcisismo é regenerador, que tenta limitar os efeitos violentos de uma sociedade do consumo. O indivíduo é um violentado antes de narcisista.

– Transformação do corpo e sexo em objetos de consumo: corpo e sexo são provas do “sucesso” do indivíduo. Só os “incapazes” permanecem marginalizados nessa “democracia”. De outro lado, instiga a poluição, competição, fabrica guerra de sexos e idades, etc. Esse “lado sujo” surge como “stress” – algo como se fosse natural. O local visado é sempre muito alto, justamente porque ninguém está à altura de alcançá-lo.

Ex. Photoshop de celebridades.

 

4. ASPECTOS DA CRISE DA SUBJETIVIDADE

 

– Modelo tem feito ebulir uma geração de “viciados”: alcoólatras, drogados, workaholics, consumistas, etc.

– Questão da droga (lícita e ilícita) se enquadra aqui: a) de um lado, a proibição do sofrimento do sujeito (é proibido sentir dor – sujeito que sente dor é “loser”); b) de outro, na interpretação de Freire Costa, trata-se de uma espécie de “suspensão” do espírito que põe o sujeito na posição de “zumbi” diante da aceleração e tensão do meio social;

– A droga preenche o vazio interior do sujeito que não consegue mais se relacionar com a alteridade. Fecha-se em mundo próprio e põe o gozo como imperativo. Mas, aos poucos, descobre que a dor é tão intensa quanto o prazer.

– Incapacidade de “sentir”;

– Conta muito cara a ser paga por essa cultura narcisista: os que vencem já perderam tudo que importa; os que perdem sentem um peso insuportável pela derrota, ficando reativos (o “lixo”).  

  

 

 

~ por moysespintoneto em novembro 29, 2008.

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